Como me tornei um designer de fontes

Como me tornei um designer de fontes

Uma breve história que também contém dicas para você se tornar um designer de fontes

Quando estava no primário, eu era o menino que desenhava no canto das folhas e fazia a capa de trabalhos para todo mundo da sala. Eu gostava disso. Meu segredo: eu tinha em casa um livro de bolso da Editora Ediouro chamado “Manual do Desenho de Letras”. Li aquele livro de cabo a rabo várias vezes e tentei replicar quase todas as letras que encontrei lá. O que eu fazia nessa época era o “lettering”, mas só fui aprender isso 20 anos depois.

Quando comecei a trabalhar com publicidade, antes mesmo de entrar na faculdade, o que eu entendia de fontes era que eu poderia escolher as letras que eu quisesse no menu do CorelDraw. No início não fiz a ligação que aquilo que eu aprendi no livro da Ediouro e o que eu fazia no computador tinham uma ligação. De qualquer maneira, eu me saí bem nos primeiros anos de trabalho. Gostava de fazer cartazes e outdoors (isso representava 90% do que eu criava como assistente de arte, na época). Mas eu tinha um outro segredo nessa época: tinha o CorelDraw instalado no 486 velho que tinha em casa. Se você não sabe o que é 486, fica uma dica: você deve ler isso como “quatro-oito-meia”. Foi nesse “quatro-oito-meia” que aprendi a usar a sombra e o degradê do Corel. 😛

Com certeza fui privilegiado por ter essas coisas em casa. Minha família nunca foi rica mas ter esse livro na infância e esse computador na adolescência me deram uma vantagem e tenho que agradecer muito a meus pais por isso. Mas esse é um assunto para outro texto.

Quando a “internet banda larga” deu o ar da graça, acabei encontrando alguns sites com conteúdo sobre design. Tipografia não era um desses assuntos e o desenho de letras ficou guardado na memória.

Tempos depois começaram a surgir as “fontes gratuitas”, normalmente em um CD-ROM vendido em revistas de informática compradas na banca. Mais tarde, descobri o manancial de fontes grátis: a própria internet. O problema com muitas dessas fontes, além da maioria ter um desenho péssimo, era o fato de elas não possuírem acentuação.

Se você é um designer gráfico, com certeza já se deparou com uma fonte que não possui os acentos que tanto precisamos na língua portuguesa. E, com a mesma certeza (ou quase), essa fonte foi baixada, sem custo, de algum site como o dafont.com. Ok. Sem problema nenhum. Mas, quando descobri que eu conseguiria editar um arquivo de fonte para incluir esses assentos ou mudar o desenho de uma letra, utilizando o software certo, um mundo de possibilidades se abriu. Tratei de “encontrar” o software certo e, pouco tempo depois, lá estava eu acentuando tudo o que via pela frente. Era o livro da Ediouro e o CorelDraw se unindo em um novo mundo.

Com o tempo, aprendi que poderia fazer mais do que ajustes. Poderia criar uma fonte para chamar de minha. É como o filme “Mulher Nota Mil”, só que mais nerd ainda. O fato é que, depois de algumas tentativas, percebi que eu precisava de muito mais conhecimento para trazer essa fonte ao mundo. Era complicado encaixar as letras umas nas outras da maneira certa e havia tantos comandos no programa que me frustrei rapidamente. É bom deixar claro que sim, mais tarde descobri que eu não deveria alterar os arquivos de fonte baixados. Cada fonte tem sua licença de uso e, na maior parte dos casos, essa licença não inclui alterações por parte de terceiros. E acho que você entendeu o que eu quis dizer com “encontrar” um software.

Esse aí é o tal programa. Diacríticos são os acentos.

Alguns anos se passaram e a curiosidade me manteve estudando sobre esse mundo misterioso do desenho de letras. Apesar de certa dificuldade de encontrar material sobre o assunto, acabei entendendo vários conceitos e técnicas só com conteúdos online. Assim, voltei a me arriscar na criação de letras, mas sem ter grandes expectativas. Não cheguei a criar uma fonte completa, mas entendi o funcionamento do software que utilizava e encontrei outras alternativas dentro da lei para fazer isso.

Depois de alguns livros e muitos rascunhos percebi que eu deveria dar vários passos atrás: Software de edição de fontes – Illustrator – Corel Draw – Livro da Ediouro. O grande segredo na criação de uma fonte não está em colocar os caracteres em um arquivo .ttf ou .otf. Está em desenhar esses caracteres. E isso… ah, isso é complicado. Fazer as capas da escola era uma tarefa muito mais fácil.

O trabalho de criar uma fonte é um trabalho de artesão. Você é o projetista, o executor, o finalizador e o vendedor do material. Um trabalho longo e árduo que reúne a necessidade de habilidades artísticas e técnicas bem específicas. Para eu levar isso adiante, precisava de um empurrão. Algo que desse um ganho na minha força de vontade.

Enfim veio um motivo: quando criava um conjunto de embalagens, tive dificuldades de encontrar uma fonte que se encaixasse no material. Encontrei uma que chegava perto do que precisava e resolvi modificá-la. Esse trabalho demoraria várias semanas, mas o projeto era longo e eu tinha prazo. Foi aí que comecei a criar essa versão “monstro de Frankenstein” dessa fonte nas horas vagas.

Pra resumir essa parte: o resultado ficou péssimo. Mandei o arquivo para a lixeira segurando o shift e usei a fonte original no projeto. Mas a vontade de criar uma fonte voltou. Muito tempo depois, uma oportunidade similar surgiu, mas daí eu já tinha passado pelos maiores professores de todos: o erro e a frustração. Foi em um novo projeto de embalagens que acabei criando a primeira versão da minha fonte Mangaba. E isso fica pra outro texto.